"A VeraTrace não pergunta de onde vens. A VeraTrace pergunta: podes provar o que fazes?"

Perdemos o fio entre o campo e o prato

Há algumas décadas, a origem dos alimentos raramente era uma questão. O agricultor tinha um nome, um rosto, uma terra que todos conheciam.

Hoje digitalizamos um código de barras que muitas vezes apenas diz 'Origem UE/não UE'. É só isso.

Uma grande maioria dos consumidores já não confia nos rótulos. E compreendemo-los perfeitamente.

O verdadeiro problema é o que não pode ser verificado

Frequentemente opomos local e importado, circuitos curtos e globalização. Estes debates fazem sentido — para o clima, para o emprego local, para a resiliência territorial.

Mas existe um problema ainda mais fundamental: a impossibilidade de verificar concretamente o que foi feito. O produto sobre o qual não sabemos quase nada — venha ele de 50 km ou de 5.000 km.

Uma produtora de óleo de argão marroquina que documenta cada etapa do seu trabalho merece exatamente a mesma consideração que um agricultor do Vale do Tejo.

Preferir o local é frequentemente uma excelente escolha. Mas um produto local pode ser opaco e um produto distante pode ser exemplar. O que nunca é defensável é a impossibilidade de verificar.

Quem faz bem paga por quem faz batota

George Akerlof recebeu o Prémio Nobel da Economia por demonstrar um mecanismo simples e destrutivo: quando o comprador não consegue distinguir a qualidade real, o preço tende para o do produto mais medíocre. Os bons acabam desanimados ou abandonam o mercado.

O produtor que respeita o seu solo, que paga justamente aos seus trabalhadores sazonais, que documenta as suas práticas, é pago ao mesmo nível de quem toma atalhos. Porque o consumidor, por falta de informação fiável, não consegue ver a diferença.

"Dependendo do setor, os produtores frequentemente capturam apenas 25 a 35% do valor final do produto."

O resto desaparece numa cadeia de intermediários que nem sequer conhecem. Não sabem onde terminam os seus produtos. Não sabem a que preço são revendidos. Transformámos os agricultores em fornecedores anónimos.

O que o mercado ainda não paga

Um produtor empenhado não produz apenas alimentos. Produz também paisagem e biodiversidade, emprego e vitalidade rural, resiliência alimentar territorial, laços sociais no campo.

Os economistas chamam a isto 'externalidades positivas': valor real que o mercado não paga (ou paga muito mal).

A rastreabilidade não resolve tudo. Mas torna visível o que era invisível. E o que se torna visível pode — finalmente — começar a ser valorizado.

Colocar o produtor no centro

A rastreabilidade é demasiadas vezes apresentada como uma ferramenta para tranquilizar o consumidor.

Acreditamos que deve primeiro servir para pagar melhor os produtores que agem de forma responsável e transparente.

Quem pode demonstrar concretamente as suas práticas deveria poder capturar uma parte mais justa do valor criado. Não por caridade. Não por subsídios. Por simples justiça económica.

O produtor não é um elo intermutável na cadeia logística. É ele quem cria o valor. É hora de capturar a sua parte justa.

O que estamos a construir

Não mais um rótulo — a proliferação de logótipos afogou o sinal. Não uma certificação baseada em declarações não verificadas. Um registo de provas verificáveis e imutáveis.

  • Quem produziu — não um número de lote, um rosto (quando o produtor o desejar)
  • Como é feito — sensores, medições objetivas, não apenas formulários
  • Por onde passou — cada elo, cada etapa documentada
  • Que nível real de rastreabilidade — uma pontuação progressiva e transparente, não um simples distintivo 'sim/não'

E sim, usamos blockchain. Não porque está na moda, mas porque é a ferramenta que responde à necessidade: garantir que os dados registados num momento preciso não podem mais ser modificados — nem por nós, nem por um distribuidor, nem por uma administração.

A blockchain não é um fim em si mesma. É um registo neutro e verificável que ninguém controla sozinho. Uma ferramenta ao serviço de produtores e consumidores.

Uma economia estruturalmente mais rica

Numa economia onde a qualidade real é visível e verificável: os custos de transação diminuem, a especialização aumenta, o esforço real é recompensado em vez do storytelling de marketing.

O que era tecnicamente impossível há vinte anos é agora alcançável a custo marginal quase nulo: capturar, armazenar e tornar acessível informação precisa e fiável sobre a origem e as práticas.

Temos as ferramentas. Faltava a infraestrutura.

A nossa posição

Anti-opacidade, não anti-importação.

O café etíope rastreado diretamente até à cooperativa tem o seu lugar. O óleo de argão marroquino documentado até às colhedoras tem o seu lugar. Os tomates do Alentejo com pontuação alta têm o seu lugar.

O que já não tem lugar é o produto anónimo, a cadeia opaca, o rótulo 'origem UE/não UE' que não diz nada.

Podemos debater sobre a globalização. A opacidade nunca é defensável.

O que não faremos

  • Dizer às pessoas o que devem comprar
  • Moralizar sistematicamente sobre local vs importado
  • Exigir a perfeição desde o primeiro dia

Tornamos a informação acessível e verificável. Cada um permanece livre de fazer as suas próprias escolhas.

Um produtor com 50% de rastreabilidade que o mostra honestamente vale infinitamente mais do que um que afirma 100% sem qualquer prova.

Valorizamos o progresso honesto, não a perfeição ostentada.

Chegou o momento

O Passaporte Digital de Produto europeu torna-se obrigatório a partir de 2027. A rastreabilidade passará de opção de marketing a obrigação regulamentar para muitos setores.

A questão já não é 'rastreamos?', mas: quem constrói a infraestrutura? Como é organizada a governança? Para onde vai o valor criado?

Podemos deixar isso para os gigantes tecnológicos americanos ou chineses. Ou podemos construir uma resposta europeia, aberta, onde a maior parte do valor volta para quem realmente produz e documenta.

O momento é agora.

A VeraTrace não é uma startup de rastreabilidade. É uma infraestrutura de confiança concebida para permitir que o mercado reconheça e pague — finalmente — quem faz as coisas bem, e tudo o que trazem ao território que moldam.

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Referências

  • George Akerlof — 'The Market for Lemons' (1970) — Prémio Nobel da Economia 2001
  • Ronald Coase — Teoria dos custos de transação
  • Elinor Ostrom — Governança dos bens comuns — Prémio Nobel da Economia 2009
  • Hernando de Soto — Capital informal e confiança institucional