O que o preço não diz
Hayek (1945): o preço faz circular um saber que ninguém detém por inteiro. Mas não diz nem a qualidade nem o percurso: não falta nada ao preço, falta um preço.

Os economistas da prova — Friedrich Hayek
Quem sabe o que é preciso saber para alimentar uma cidade?
Ninguém. Nem o ministério, que recebe os números com meses de atraso. Nem a central de compras, que conhece os seus contratos mas não os campos. Nem o maior distribuidor do país. O saber necessário — o estado desta parcela, a geada da noite passada, a avaria daquele camião, o cansaço súbito daquele horticultor — está disperso em milhares de cabeças, e nunca pode ser reunido numa só. Nenhum recenseamento é suficientemente rápido, nenhuma administração tem olhos suficientes.
É o ponto de partida de um artigo de catorze páginas publicado em 1945, tornado um dos mais citados de toda a história da disciplina: «O Uso do Conhecimento na Sociedade», de Friedrich Hayek.
A maravilha
A tese de Hayek assenta numa inversão. O problema económico, diz ele, não é aquele que se pensa — alocar da melhor forma recursos conhecidos. É um problema de conhecimento: como utilizar um saber que ninguém detém por inteiro? E a sua resposta é que a solução já existe, à vista de todos, desde sempre: o preço.
O seu exemplo tornou-se célebre. Algures no mundo, uma mina de estanho fecha — ou surge um novo uso para o estanho, pouco importa. Sem que nenhum dos interessados precise de saber porquê, o preço sobe. E este simples número basta: milhares de industriais poupam estanho, engenheiros procuram substitutos, prospetores reabrem jazidas marginais. Cada um viu apenas um preço; todos agiram como se soubessem o que só um deus omnisciente poderia saber.
O preço é um resumo. Comprime num número tudo o que o mundo sabe sobre a escassez de uma coisa — as colheitas, as avarias, as guerras, as modas — e faz circular essa compressão mais depressa e mais longe do que qualquer relatório alguma vez fará. É preciso dizê-lo sem reservas: é um dos mecanismos mais espantosos jamais descritos por um economista, e oitenta anos depois, ninguém encontrou melhor para o que ele faz.
Para o que faz.
Pois um resumo, por definição, descarta. É mesmo essa a sua função: comprimir é escolher o que se guarda. O preço transmite a escassez — admiravelmente. Não transmite nem a qualidade, nem a prática, nem o percurso.
Dois tomates ao mesmo preço na mesma banca. Um cresceu num solo vivo, a trinta quilómetros, colhido maduro ontem. O outro atravessou um continente a amadurecer dentro do camião. O preço é rigorosamente mudo sobre a diferença — não por falha, mas por construção: só tem um número para dizer tudo, e esse número já está ocupado.
O primeiro episódio desta série mostrava o que acontece então. Quando o comprador não consegue distinguir a qualidade, paga um preço médio; ao preço médio, o melhor produtor vende com prejuízo e sai do mercado; a qualidade média desce, o preço acompanha, e o mercado afunda-se — é o mercado dos limões de Akerlof. Os dois resultados encaixam exatamente: Hayek descreveu o canal, Akerlof mostrou o que acontece a tudo o que não passa por ele. O que o preço não consegue dizer acaba por deixar de existir economicamente.
O mercado em falta
A conclusão preguiçosa seria: o preço é imperfeito. É falsa, e Hayek teria razão em varrê-la — imperfeito em relação a quê? O preço mundial do tomate faz perfeitamente o seu trabalho, que é agregar a escassez do tomate.
A conclusão exata é mais perturbadora: não falta nada ao preço. Falta um preço. A prática verificada, o percurso comprovado, a qualidade atestada não têm preço em lado nenhum — nenhum mercado os cota, nenhum sinal os faz circular. Os economistas têm um nome técnico para isto: um mercado em falta. E um atributo sem preço não circula, seja qual for o seu valor real — fica na cabeça de quem o conhece, como o mapa na areia.
A lição de 1945 diz então precisamente o que não fazer. Perante um conhecimento disperso, o reflexo é centralizá-lo: um armazém de dados, uma plataforma onde cada um é convidado a despejar o que sabe. Este reflexo já foi tentado, várias vezes, com meios consideráveis — e falhou em série, sempre da mesma forma: cada um devia contribuir, ninguém encontrava vantagem nisso, o conhecimento não apareceu. Hayek podia ter escrito estes necrológios oitenta anos antes. Não se centraliza um conhecimento disperso. Só se mobiliza dando a cada um uma razão local para o partilhar — é exatamente o que um preço faz, e é exatamente o que um formulário nunca fará.
A resposta hayekiana ao mercado em falta não é, portanto, nem um ministério da qualidade, nem mais uma plataforma. É a criação do preço que falta: um segundo sinal, ao lado do primeiro, que faça circular o que o primeiro descarta — e que retribua, precisamente no lugar onde se encontra, o conhecimento que põe em movimento.
A objeção que Hayek faria
É previsível, e é séria: se os compradores valorizassem verdadeiramente a prova, o mercado já a teria produzido. A sua ausência demonstra que ela não vale o seu custo. É o argumento hayekiano padrão contra qualquer pretensão de corrigir o mercado, e merece mais do que um encolher de ombros.
Duas respostas, e ambas já estão na série. A primeira: é verdade a um dado custo de descrição — e esse custo acabou de se desmoronar. O que exigia um homem e um caderno cabe agora num sensor e numa norma; um mercado que não existia ao custo antigo pode existir ao novo. A ausência de ontem provava o preço de ontem, não o valor de hoje.
A segunda é mais profunda: na presença de assimetria de informação, o mercado em falta não se autocria. É o resultado mais sólido de toda esta série — Akerlof demonstrou-o, e o Nobel que o coroou não premiava uma opinião. O mercado dos limões não se repara sozinho: sem mecanismo de prova, o vendedor de qualidade não se consegue sinalizar, logo ninguém paga pela qualidade, logo nunca se cria um preço para ela. O segundo sinal não é uma correção do mercado contra Hayek. É o que faltava para que o mercado da qualidade exista — no sentido mais hayekiano da palavra: um lugar onde o conhecimento disperso encontra finalmente o seu número.
Voltemos ao estanho, uma última vez. O preço dirá sempre, melhor do que qualquer administração no mundo, quão raro está o tomate esta semana. Nunca dirá o que ele é, nem de onde lhe vem o que vale. Não é um defeito a corrigir: é um lugar por ocupar. Dois canais, duas funções — e um mercado que só diz toda a verdade quando os dois circulam.
O preço diz quanto custa. Falta fazer circular quanto vale.
—
Friedrich Hayek, «The Use of Knowledge in Society», American Economic Review, 1945. Episódio 6 da série «Os economistas da prova», depois de Akerlof, Spence, Stiglitz, Coase e Ostrom.
O que isto muda para si
O mesmo raciocínio não se aplica da mesma forma consoante o seu lugar na cadeia.
É produtor
O preço transmite uma escassez, não um percurso. Enquanto nenhum mercado cotar a qualidade invisível, a sua continua a ser paga ao preço médio.
VeraTrace para produtores →É grossista ou negociante
Arbitra apenas com o sinal disponível. Não é uma falta de rigor: não falta uma informação ao preço, falta um preço.
VeraTrace para grossistas →É distribuidor ou central de compras
Um caderno de encargos é uma tentativa de recuperar à mão o que um mercado em falta não cota. É dispendioso, e não é escalável.
VeraTrace para a distribuição →